domingo, 24 de agosto de 2008

À "Despalavra".



POEMA


A poesia está guardada nas palavras - é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.


Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias do mundo.
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.


(BARROS, Manoel. Tratado geral das grandezas do ínfimo.Rio de Janeiro: Record, 2001.)



Entrevista com Manoel de Barros no Jornal da Globo, 2006.

sábado, 9 de agosto de 2008

A Estética Subversiva?

Este belo filme é uma tragicomédia de Alain Berliner sobre Ludovic, um menino belga que vive com a família num subúrbio de Paris. Ele cresce imaginando que nasceu no corpo errado: na verdade, acredita ser uma menina.
Logo na primeira sequência, aparece numa festa promovida pelos pais para atrair a nova vizinhança num lindo vestidinho. A impressão e o mal-estar não saem das cabeças dos vizinhos, que começam a pressionar e ridicularizar o rapazinho. A rejeição acaba por se estender aos pais, aos colegas e a qualquer um que se aproxime de um sintoma de homossexualidade tão latente.
Ludovic refugia-se do tormento em um mundo róseo, um imaginário só dele, um imaginário individual radical onde só cabem a boneca Pam, uma Barbie espevitada, e o apoio afetivo da avó .

Uma bonita história de magia, desejo e diferença, onde a lógica e coragem de uma criança se contrapõe aos preconceitos dos que a rodeiam. Extraordinário o desempenho de Georges Du Fresne, o menino. A mão leve do director para tratar de um tema delicado é o grande mérito do filme, além do garoto, que é extraordinário. Vencedor do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro em 98.

O título Ma vie en rose não existe oficialmente em português, mas a sua tradução literal é minha vida em cor-de-rosa. Intencionalmente ou não, o título também remete à canção La vie en rose, muito associada à cantora francesa Edith Piaf (1915-1963) (contemporânea comparsa e subversa da cantora alemã Marlene Dietrich).

O uso de cores faz parte integral nesta produção e as cores foram utilizadas de forma a auxiliar efetivamente a comunicação do autor com a sua audiência.
Veja algumas cenas do filme:


Analisando o processo de construção:

domingo, 3 de agosto de 2008

Introduzindo meu universo sem fim...

O universo da Literatura Infantil e Juvenil é bastante amplo, rico em detalhes e especificidades. Enobrece, seduz, amplia horizontes, espelha a sociedade, tem função didática mas também estética, e justamente por essa dimensão estética, faz alçar vôos. Esse mágico universo também seduziu-me, desde minha mais tenra idade, despertando meu real interesse não só pelas histórias mas pelo processo de sua criação. Queria descobrir a qualquer custo como um instrumento aparentemente tão simples (o livro) poderia provocar em mim - uma criança com seus dez anos, mais ou menos - tantas transformações, instigando um espírito inquisidor, investigativo desde essa época. E, ainda, como uma história de ficção poderia bombardear tão avassaladoramente uma mente como a minha, um pirralhinho de apenas dez aninhos! Como isso era possível?

Dessa data em diante, iniciei meus processos investigativos através da devoração das mais variadas obras do gênero, inclusive das que saltavam do livro para as grandes telas do cinema (na época em que o DVD ainda nem era projeto e os filmes ou eram vistos nas salas de cinema ou naqueles monstrengos e enormes vídeos-cassetes).

Foi então que conheci a obra das obras e tive um primeito contato com o autor que iria mudar a minha visão de mundo (embora só fui saber seu nome alguns anos mais tarde), que iria provocar mudanças radicais no meu modo de pensar (e acreditem, com dez anos eu já pensava e muito - diferentemente de muitas crianças da atualidade que ocupam suas ávidas mentes com coisas fúteis e insignificantes) era a história das histórias de repente diante dos meus olhos. Lembro-me como se fosse ontem... Comercial, SBT ou TVS, logo o anúncio do filme... um filme que talvez nunca acabasse? - perguntava eu. Mas como poderia ser? Isso era impossível! "A História Sem Fim". Oh! Sim, era isso. Finalmente o que eu mais esperava, uma história que nunca mais terminasse, como uma novela de milhares de capítulos que vão originando novas histórias e desencadeando novos núcleos e novas narrativas laterais.

Tudo o que eu precisava para me divertir e escapar da minha dura realidade de garoto excluído por sempre ser taxado de esquisito, nerd, e outras modalidades de classificações do tipo. Logo de início me apaixonei pelo filme, pois via-me representado na obra através do seu herói-protagonista Bastian Baltazar Bux. E quando ele alçava seus vôos maravilhosos nas costas de seu dragão branco da sorte eu me sentia em puro extase! Como eu desejava um dragão branco pra poder voar pelos céus da minha terra, poder ver todos bem de lá do alto, de onde suas ofensas e rotulações não mais pudessem me atingir. Como seria bom cavalgar pelas planícies de fantasia com Atreyu em seu cavalo Artax, vivendo essas maravilhosas aventuras.

E, durante muitos e muitos anos morei dentro dessa história. Até que o tempo foi passando, as coisas foram se acertando em minha vida e hoje me encontro aqui, escrevendo para esse espaço. Introduzindo minhas primeiras experiências com a literatura para jovens e servindo de exemplo vivo de que essa é uma arte em franca expansão em nosso país e será alvo ainda de muitos estudos e pesquisas.

Não querendo desmerecer as nossas obras nacionais - que são espetaculares - mas foi essa obra (embora através do cinema) que introduziu-me no universo da real fantasia. Chega a ser impressionante, a REAL FANTASIA (notem que o termo simboliza a quebra desse paradoxo). Em "A História Sem Fim", Michael Ende, autor alemão, faz esse percurso com tamanha destreza que nos leva ora pra dentro do livro, ora pra fora, ora dentro do livro novamente e adentrando ainda mais uma vez o outro livro que está sendo lido e, como num jogo de espelhos, fantasia e realidade se entrelaçam momentaneamente, alimentando a consciência tanto do jovem quanto do adulto que, por natureza, tem necessidade de ficção.

Mas encerro esta breve introdução ao meu, e porque não dizer, ao nosso universo fantástico, insólito, maravilhoso, por vezes até estranho; esse universo artístico que nos leva longe sem sairmos do lugar, esse universo das obras destinadas a crianças e jovens, obras magníficas que tem o poder de manter qualquer adulto uma eterna criança, um eterno jovem, pelo menos no mais profundo interior de sua consciência. Uma vez que todos nós estamos imersos nessa rede textual infinita e que todos fazemos parte dessa história sem fim.


Trailler "A História Sem Fim", 1984; Wolfgang Petersen.